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Dois demonstrativos abertos lado a lado e uma calculadora sobre a mesa

A decisão que se toma uma vez por ano e vale doze meses

Lucro real ou lucro presumido

O teto de R$ 78 milhões não mudou. O que mudou foi o crédito, e é ele que passou a decidir a conta.

Se alguém escolheu o seu regime há alguns anos comparando presunção com margem, a conta estava certa para aquele momento. Ela está incompleta hoje.

Entrou uma variável nova, e ela é grande: quanto das suas compras gera crédito. Duas empresas com a mesma receita e a mesma margem podem ter respostas opostas por causa dela.

O teto não mudou, e quem diz o contrário está enganado

O limite de receita bruta para optar pelo lucro presumido continua em R$ 78 milhões no ano-calendário anterior, na forma do artigo 13 da Lei nº 9.718/1998. A reforma tributária não alterou esse teto. Se a sua receita passou dele, o lucro real deixa de ser escolha e vira obrigação, e a conversa muda de assunto.

Abaixo do teto, e fora das hipóteses de obrigatoriedade por atividade, você escolhe. E a escolha se manifesta no primeiro pagamento do ano e vale o ano-calendário inteiro.

O que cada regime faz, em uma frase

O lucro presumido tributa um lucro que a lei presumiu. Aplica-se um percentual sobre a receita bruta para achar a base, e sobre ela incidem IRPJ e CSLL. Não importa se você teve quarenta por cento de margem ou se teve prejuízo: a base é a mesma. O PIS e a COFINS ficam no regime cumulativo, a 3,65% sobre a receita, sem crédito.

O lucro real tributa o lucro que você teve. A base é o resultado contábil ajustado, e por isso quem ganha pouco paga pouco e quem tem prejuízo não paga IRPJ nem CSLL, e ainda acumula prejuízo para compensar depois. O PIS e a COFINS ficam no regime não cumulativo, a 9,25% sobre a receita, com desconto dos créditos das entradas.

Aí está o ponto que quase toda comparação antiga ignora. A alíquota de PIS e COFINS no lucro real é quase três vezes a do presumido. Ela só compensa por causa do crédito. Se você compra pouco, ou compra de quem não gera crédito, você paga a alíquota cheia e não desconta quase nada.

O CRÉDITO MOVE A VIRADA EM ONZE PONTOS DE MARGEM 16,9%19,6%22,3% 25,1%27,8% créditos de 5%créditos de 15% créditos de 25%créditos de 35% créditos de 45% 0% margem de virada 30% Serviços com presunção de 32%, receita de R$ 5.000.000. Abaixo da margem indicada o lucro real custa menos. O crédito da coluna da esquerda não é detalhe de apuração. É o que decide a resposta.
A margem de virada não é um número fixo da empresa. Ela anda quase onze pontos conforme o quanto das suas compras gera crédito, e é por isso que a resposta de cinco anos atrás pode estar errada hoje.

A conta, com números

Uma empresa de serviços, presunção de 32%, receita de R$ 5.000.000 no ano.

Lado do lucro presumido, que não se move com a margem
ComponenteBaseValor no ano
IRPJ, 15% mais adicional de 10%32% de R$ 5.000.000R$ 376.000,00
CSLL, 9%32% de R$ 5.000.000R$ 144.000,00
PIS e COFINS cumulativos, 3,65%receita brutaR$ 182.500,00
Total14,05% da receitaR$ 702.500,00

Agora o lado do lucro real, com a margem e o crédito variando. A linha do crédito é o percentual da receita que as suas compras creditáveis representam.

Lucro real na mesma receita, e a comparação com os R$ 702.500,00 do presumido
MargemCréditos de 15% da receitaCréditos de 35% da receita
8%R$ 505.125,00, vence o realR$ 412.625,00, vence o real
12%R$ 573.125,00, vence o realR$ 480.625,00, vence o real
16%R$ 641.125,00, vence o realR$ 548.625,00, vence o real
20%R$ 709.125,00, vence o presumido por R$ 6.625,00R$ 616.625,00, vence o real
26%R$ 811.125,00, vence o presumidoR$ 718.625,00, vence o presumido por R$ 16.125,00

Repare na linha de 20%. Com crédito de quinze por cento da receita, o presumido ganha por R$ 6.625,00. Com crédito de trinta e cinco por cento, na mesma margem e na mesma receita, o real ganha por R$ 85.875,00. A margem não mudou. O crédito mudou, e virou a resposta.

Comércio e indústria jogam outro jogo

Nas atividades com presunção de 8% para IRPJ e 12% para CSLL, o lucro presumido custa 6,25% da receita, contra 14,05% dos serviços. Isso é muito difícil de bater. Na mesma receita de R$ 5.000.000, o lucro real só passa a compensar com créditos altos, acima de quarenta e cinco por cento da receita, e ainda assim em margens baixas.

A conclusão prática é direta: em comércio e indústria a pergunta certa costuma ser se você está prestes a estourar o teto ou se tem prejuízo a compensar. Em serviços, a pergunta é a margem e o crédito, e ela merece ser refeita todo ano.

O que a transição acrescenta

O ano de 2026 é de teste, com alíquota simbólica, para os sistemas e as obrigações rodarem. O efeito de caixa começa em 2027. A alíquota de referência de IBS e CBS ainda não foi fixada, e o Senado tem prazo até 15 de dezembro de 2026 para fixá-la.

O desenho da reforma é de crédito amplo, e isso tende a pesar contra quem está num regime que não credita. Por isso a decisão de regime deixou de ser uma conta de IRPJ e CSLL e passou a ser também uma conta de cadeia: quanto crédito você toma, e quanto crédito o seu cliente consegue tomar quando compra de você.

Não apresentamos simulação fechada de 2027, porque a alíquota não existe. Montamos o modelo com ela como variável, e no dia em que sair a resposta é imediata.

As cinco coisas que a comparação precisa ter e quase nunca tem

O que fazemos

Perguntas que chegam antes da primeira reunião

O limite do lucro presumido mudou com a reforma?

Não. Continua em R$ 78 milhões de receita bruta no ano-calendário anterior, na forma do art. 13 da Lei nº 9.718/1998. O que mudou foi a dinâmica do crédito, que passou a pesar mais na comparação entre os regimes.

Posso trocar de regime no meio do ano?

Não. A opção se manifesta no primeiro pagamento do ano-calendário e vale os doze meses. Por isso a comparação precisa ser feita antes, e não em março quando o assunto aparece.

Prejuízo acumulado muda a resposta?

Pode mudar sozinho. No lucro real o prejuízo compensa até o limite de trinta por cento do lucro de cada período. No presumido ele não vale nada. Uma empresa com prejuízo grande a compensar costuma ter a resposta decidida por essa única linha.

Como sei quanto das minhas compras gera crédito?

Abrindo o razão de fornecedores e classificando cada um pelo regime em que está. Percentual médio de mercado não serve, porque a sua cadeia é a sua. Esse levantamento é a parte trabalhosa da análise e é a que muda o resultado.

Vocês fazem a simulação para 2027?

Montamos o modelo com a sua matriz real de entradas e saídas e a alíquota como variável. Simulação com número fechado não, porque a alíquota de referência ainda não foi fixada.

Minha empresa é de serviços e tem margem alta. Preciso comparar?

Vale comparar mesmo assim, porque o crédito move a margem de virada em quase onze pontos. Uma margem que parecia confortavelmente acima da virada pode estar abaixo dela quando o crédito é medido de verdade.

Traga doze meses e o razão de fornecedores

Com o faturamento, o resultado e as compras dos últimos doze meses, o diagnóstico devolve a sua margem de virada e a distância entre ela e a sua margem de hoje.

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Antonio Nóboa, contador, CRC RJ-082992/O-1-T. CFO(BR)® certificado pelo IBEF-SP. MBA em Agronegócios USP/ESALQ.
Revisado em . Base normativa desta página: Lei nº 9.718/1998, art. 13; Lei nº 9.249/1995, arts. 3º, 15 e 20; Lei nº 10.637/2002 e Lei nº 10.833/2003; LC nº 214/2025 e EC nº 132/2023.