Pescado
Custo por maré: por que o balancete mensal mente sobre a pesca
Custo integralmente antecipado, três viagens no mesmo mês e a distribuição que a média esconde.
O balancete do mês está certo e é inútil para decidir a próxima viagem.
Ele soma duas marés, tira uma média e devolve uma margem que não corresponde a nenhuma das duas.
A característica que separa a pesca de tudo
A operação de pesca de captura tem um traço que a distingue de qualquer outra atividade produtora de alimento no país: a totalidade do custo da viagem é desembolsada antes da saída da embarcação.
Óleo diesel marítimo, gelo, rancho, manutenção, cabos e aparelhos, e a remuneração da tripulação, paga antecipadamente conforme a prática do polo industrial de Itajaí.
Em consequência, não existe custo variável de peso na operação. O custo é integralmente fixo em relação ao resultado da viagem, e cada tonelada não capturada reduz a receita sem reduzir o custo incorrido.
A comparação com a lavoura mostra o tamanho da diferença. O produtor desembolsa o custeio de forma escalonada e conserva margem de decisão depois do plantio: pode revisar a segunda adubação, reduzir a aplicação foliar, ajustar o pacote de defensivos. Existe ponto de recuo. Na viagem de pesca não existe ponto de recuo.
Três viagens da mesma embarcação
Exemplo numérico · viagem de vinte dias, preço de R$ 9,00 por quilo
| Item | Viagem boa | Viagem média | Maré branca |
|---|---|---|---|
| Produção desembarcada | 60 t | 34 t | 7 t |
| Receita bruta | 540.000 | 306.000 | 63.000 |
| Óleo diesel marítimo | 180.000 | 180.000 | 195.000 |
| Tripulação, paga antes da saída | 90.000 | 90.000 | 90.000 |
| Gelo, rancho e embalagem | 45.000 | 42.000 | 38.000 |
| Manutenção, cabos e aparelhos | 35.000 | 35.000 | 35.000 |
| Taxas e despesas de porto | 15.000 | 15.000 | 15.000 |
| Custo total, antes da saída | 365.000 | 362.000 | 373.000 |
| Resultado da viagem | 175.000 | -56.000 | -310.000 |
A coluna do meio é a que exige atenção. Trinta e quatro toneladas é tratado no cais como resultado razoável. Produz prejuízo de cinquenta e seis mil reais antes de depreciação, seguro, estrutura administrativa e serviço da dívida.
E repare na linha do óleo na maré branca: 195 mil contra 180 mil. A embarcação que não encontra o cardume queima mais combustível procurando. O custo sobe justamente quando a receita desaparece.
A média não descreve a operação. A distribuição descreve.
A operação não se sustenta com viagens medianas. Ela depende de assimetria: viagens de resultado elevado em número suficiente para cobrir as medianas e absorver as improdutivas.
Exemplo numérico · o que três marés brancas a mais fazem com o ano
Uma queda de dez por cento na produção do ano vira setecentos e sessenta e dois mil reais de diferença e inverte o sinal do exercício. Nenhuma média anual mostra isso.
O óleo é custo de prospecção, não de produção
O óleo responde por quarenta a sessenta por cento do custo da viagem. Até aí, o paralelo com o fertilizante da lavoura funciona: insumo dominante, formado em moeda estrangeira, fora do controle do operador.
A partir daí, ele quebra. O fertilizante é incorporado ao solo e se converte em planta. O óleo diesel marítimo não se converte em produto e é consumido em idêntica proporção pela embarcação que retorna carregada e pela que retorna vazia.
A cadeia da pesca de captura é a única do agronegócio brasileiro em que o maior custo da operação não é custo de produção. É custo de procurar.
O que uma contabilidade por viagem entrega
- Resultado por viagem e por embarcação, conciliado com o balancete no fim do mês.
- A distribuição dos resultados do ano, e não a média.
- Custo por tonelada desembarcada, por embarcação e por arte de pesca.
- Consumo de óleo por tonelada, que é o indicador que antecipa a maré ruim.
- A série histórica que o comitê de crédito precisa ver.
O que fazer agora
- Reconstrua as duas últimas viagens na estrutura acima, com os seus números.
- Separe o que é custo de viagem do que é custo fixo da armação. São duas contas diferentes e costumam estar misturadas.
- Conte quantas marés brancas você teve nos últimos doze meses. Se não souber de cabeça, esse é o problema.
- Calcule o consumo de óleo por tonelada de cada viagem do último ano e olhe a série.
Isto vale para a sua empresa?
Este artigo explica a regra. O que ela faz com o seu caixa depende dos seus números, e essa conta a gente faz junto no diagnóstico, sem custo.

Quem assina este trabalho
Antonio Nóboa. Contador, CRC RJ-082992/O-1-T. CFO(BR)® certificado pelo IBEF-SP, certificado nº 301. MBA em Agronegócios USP/ESALQ. Membro da Sociedade Rural Brasileira. Autor de Finanças Corporativas para o Agronegócio: Da Roça às Tradings, Editora Cátedra, lançamento em 2026.
A primeira conversa pode acontecer na sua empresa.
Revisado em . Base normativa desta página: Nota Técnica ANEDIGA nº 01/2026, Tabela 1 e Gráfico 2.
